A aula era sobre liturgia, mas o docente, presbítero romano, muito falante e sociável, conversava conosco sobre tudo; interessava-se pela vida dos discentes. Certa feita, durante uma de suas aulas, perguntou-me o que eu fazia enquanto anglicano (à época diácono). Descrevi o que eu fazia, apresentei a simplicidade do ato de estar no campus. Depois ouvi que meu trabalho é uma presença que interpela.
O professor nunca vira com os próprios olhos o que eu fazia, mas convenceu-me de que aquela era a melhor descrição, colocou em palavras simples e objetivas o sentimento, a razão, a integralidade do ato. Capelania é o amor fora do arraial, afirmo sempre. Capelania é sobre a escolha de acolher, a escolha perene, jamais sobre constranger em nome do Autor da Vida.
Atuo como capelão desde março de 2011, salvo um engano da minha parte, desde o dia 11 daquele mês. A capelania formou meu olhar, moldou a minha pisada no chão da vida. Ministros religiosos estão afeitos ao controle e à previsibilidade, mas a capelania experienciada, como eu experienciei, ensinou-me a servir sem controlar, a não saber quem virá, nem de onde virá, tampouco quando e como virá.
Sou grato ao Eterno por ter providenciado a capelania em minha vida antes de providenciar a ordenação presbiteral. Estou certo de que eu seria outro reverendo, outra pessoa, não fosse a caminhada que foi feita. Foi caminhando como capelão e na busca por intimidade com a Escritura que aprendi não poderem constar na mesma frase as palavras servir e protagonismo, amar e relevância. Quem quer servir, não se importa com o protagonismo, não instrumentaliza a necessidade de outrem para protagonizar; quem quer amar não anela relevância, não busca os próprios interesses.
Escrever sobre a capelania após 15 anos servindo como capelão, nos bons ou maus momentos, na alta ou na baixa, sendo lembrado ou esquecido, é um exercício de memória, de análise, ou seja, um ato subjetivo e impreciso, a partir do chão que pisei. Não pretendo, portanto, a ninguém convencer e um modelo de capelania estabelecer. Quero compartilhar.