Tenho absoluta convicção de que o líder cristão do futuro é chamado a ser completamente irrelevante e a se manter neste mundo como alguém que não tem nada a oferecer exceto seu eu vulnerável. Foi assim que Jesus veio revelar o amor de Deus.
- Henri Nouwen -
§1 Se você, por alguma razão, ainda acredita ser possível convencer alguém acerca da nossa fé cristã, recomendo ler “Godless: How an Evangelical Preacher Became One of America’s Leading Atheists (English Edition)” de Dan Barker, prefaciado por Richard Dawkins. Depois de ler, você entenderá que não é possível, pois nós, os cristãos, somos detentores de uma mensagem, não de um argumento. Mas se você ainda quer cortar a orelha do soldado, vá em frente. Saiba, contudo, que fazer discípulos é, sim, tarefa nossa, mas não gerar a fé. A fé, lembre-se, é dom gratuito que vem do alto.
§2 Importante você saber: Barker leu Schaeffer e C. S. Lewis, mas não adiantou. Então se você acha que alguém se converteu graças à erudição de algum outro alguém, engana-se. E digo mais: na maior crise de fé que tive, eu a resolvi lendo Nietzsche e Bertrand Russell, mais precisamente seus Ensaios Céticos. Sim, o Eterno tem seus caminhos e não são os nossos.
§3 Vivemos dias em que a comunidade cristã mede sua importância em função da sua relevância, do seu protagonismo na sociedade. A gente quer impactar o mundo ao nosso redor com a beleza da verdade que julgamos possuir, mas que não nos possui, posto que a colocamos a nosso serviço e não o contrário. Queremos persuadir o mundo ao nosso redor em nome do amor, mas não queremos amar; não queremos servir, apenas queremos ser servidos; queremos um mundo mais confortável, no qual sejamos reconhecidos como a causa de tudo de bom que há neste mundo caído, nessa sociedade imperfeita e, de tabela, sugerir que tudo de ruim advém de quem conosco não ajunta. Queremos o bônus, as honras em nome de Deus altíssimo, e estamos dispostos a acomodar a mensagem simples do evangelho a argumentos sofisticados, à altura apenas de uma classe especial de gente, a fim de parecermos melhores e sermos aceitos. Somos um hobbit se olhando no reflexo da água e vendo um gigante; então, enganados a nosso próprio respeito, mergulhamos em busca da nossa relevância e do nosso protagonismo, julgados como nosso direito adquirido na cruz.
§4 Somos cronicamente insatisfeitos. Não basta sermos bons médicos, advogados, sapateiros, engenheiros, químicos ou coletores de lixo, que discretamente exercem sua vocação; nós precisamos convencer o mundo de que a gente é diferente, que a gente clinica, advoga, conserta, constrói, experimenta e coleta de um modo especial, pois, afinal, somos cristãos. Mas saiba, se você é cientista e também é cristão/cristã, o seu chamado é fazer boa ciência, não “ciência cristã”, pois isso não existe; assim como não existe “engenharia cristã”, o que existe é engenheiro que é cristão e que por isso tem o dever de fazer boa engenharia, e não, sua atividade não melhora por dar a ela o epíteto de “cristã”.
§5 Pela boa atividade que você faz é possível que as pessoas saibam ou não que você é cristão/cristã; mas mesmo que nunca venham a saber que você crê em Jesus, continua sendo seu dever fazer o bem, fazendo bem o que você tem vocação para fazer. Ora, você, que é cristão, deixa de confiar em um médico por ser ele ateu? Escolhe o mecânico do seu carro procurando saber quem são os mecânicos cristãos, ou quem são os mecânicos mais competentes? Pois bem, por que então supor que alguém vai julgar você diferentão/diferentona porque sua atividade temporal vem acompanhada de um sobrenome?
§6 O que fazer então? Creio que o mais importante a fazer é nos lembrarmos de que nossa fé era loucura no tempo apostólico, continua sendo hoje e sempre será. Depois, podemos aceitar que somos detentores de uma mensagem, não de um argumento; talvez, assim, evitemos achar que ostentar nossa erudição torna Jesus mais atrativo, razoável e verossímil. Nossos talentos e vocações são instrumentos que o Eterno nos deu para abençoarmos (não convencer) os outros, assim como o Eterno abençoa a todos, fazendo chover sobre justos e injustos. Deveríamos, dessarte, nos relacionarmos com nossas atividades temporais como meios de abençoar igualmente a todos, sem esperar alguma adesão ao nosso corpo de crenças, tampouco esperar reconhecimento da nossa capacidade intelectual; mas, tão somente, caso a adesão aconteça, darmos graças ao autor da fé e tomar parte em seu discipulado. Portanto, deveríamos evitar tentar, por meio de maneirismos intelectuais e harmonizações artificiais, promover um favorecimento cultural à nossa fé a fim de nos sentirmos mais confortáveis no exercício das nossas atividades temporais.
§7 Sim, esse ensaio é sobre ciência e fé, mas, antes, precisamos pensar nossa vida ordinária e nossas atividades temporais; essas, se exercidas com amor, sem proselitismo e elitismo, são os passos que anunciam as boas-novas, e quão formosos são. Nós, os cristãos, devemos exercer nossas profissões como instrumentos de louvor ao Eterno, mas não devemos instrumentalizar nossas profissões, tampouco instrumentalizar a ciência para fins apologéticos.