Sempre achei por demais temerário escrever acerca de qualquer ato pastoral e, sim, o ato do capelão é um ato pastoral; razão pela qual fiz as ressalvas que fiz no prefácio. Não estou motivado, reitero, a estabelecer um modelo de capelania, nem a suprir a ausência de material nesse nicho ou a escrever algo que contenha abstrações generalistas de quem só surfa uma onda de oportunismo. A motivação, portanto, é compartilhar minha caminhada porque ela é concreta, vida vivida, e tudo o que é concreto contém algo de universal; pode ser, então, que o concretamente vivido tenha alguma serventia alhures e algures para alguém.
Ora, se meu propósito não passa por estabelecer um modelo de capelania, o que pretendo ao compartilhar minha caminhada? O que vivi, eu vivi dentro da minha realidade, porque capelania é uma presença real e analógica. Cada capelania, portanto, atendendo a esse princípio de ser presença real e analógica, deparar-se-á com uma realidade única. Essa realidade, por sua vez, demandará presença igualmente única. Sendo assim, o que pretendo é ofertar os princípios sobre os quais eu exerci o capelanato dentro do meu contexto, deixando a cargo do leitor e da leitora o discernimento de como isso deve ou não ser implementado na sua realidade.
Quinze anos depois | Praça Universitária, Campus Colemar Natal e Silva, UFG.
“Se o homem fosse apenas mente, adoração mental seria a forma pela qual ele comungaria com Deus.”
Abraham J. Heschel
Há algum tempo eu cooperei na recepção de um grupo de presbiterianos oriundos dos EUA. O grupo viera ao Brasil, dentre outras coisas, para participar de um trabalho social realizado na periferia de Trindade, Goiás. Em dada ocasião, um pastor presbiteriano sentou no banco da frente do carro que eu dirigia e perguntou a que denominação eu pertencia; respondi que era anglicano. Ele, então, relatou que admirava uma igreja anglicana perto da igreja por ele pastoreada. Falou ele de sua admiração para com os anglicanos, que, segundo ele mesmo afirmou, ao contrário dos presbiterianos, conseguiam falar ao coração. Falou também dos esforços que vinha fazendo para mudar esse quadro, pelo menos no contexto de sua paróquia. Não considero que presbiterianos sejam frios; tudo bem que a fama precede, mas falo com liberdade, pois já fui presbiteriano e há de tudo: gente com o coração frio e mente fervilhando, bem como gente com o coração quente e mente saudável. Mente que fervilha é sinal de cabeça quente, não de sensatez.
Fui educado para não considerar o coração nas decisões. A gente vive em uma cultura positivista. Confia-se na cabeça, desconfia-se do peito. Não nos enganemos, a indústria da propaganda recorre à lógica grega, binária, para convencer-nos de que só devemos fazer o que nos faz bem. Aparentemente é um apelo ao coração, aos sentimentos, mas não é, trata-se de um apelo à razão. A lógica simplista, binária, é que se faz terreno adequado para o egocentrismo. Mais uma vez falo com liberdade e falo de mim: já pus muita coisa boa a perder em minha vida por não ter peito, o que C. S. Lewis compreendeu muito bem. Em A abolição do homem, publicado no Brasil pela Martins Fontes, ele assevera que é ridículo produzirmos homens sem peito e esperarmos deles virtude e iniciativa. Afirmou também que não é o silogismo que, em uma batalha, mantém um soldado na trincheira após a terceira hora de bombardeio. Lewis falou do que viveu, pois fora soldado combatente na 1ª Grande Guerra.
Para Lewis, sem o auxílio de sentimentos devidamente educados, o intelecto é impotente ante o organismo animal. Creia, a cabeça é instrumento do peito, não o contrário. Não parece adequado, portanto, supor que a razão domina os sentimentos. Ademais, não se discute desejo com argumento, não é mesmo? Desejo se discute com desejo. De maneira que educar os sentimentos é necessário para colocar a mente nos trilhos, não o contrário. Uma olhadela no episódio ocorrido no caminho de Emaús (Lucas 24.1-30) ajuda a entender melhor o que parcamente tento elucidar. Os olhos dos discípulos se abriram e viram/entenderam finalmente que quem estava diante deles era o Cristo ressuscitado (v.31). O que disseram, então? Que, antes de compreenderem que aquele era o Cristo ressuscitado, seus corações queimaram (v.32). Primeiro o coração queima, depois os olhos se abrem. O peito arde e só então a mente compreende. Para que nossos olhos sejam bons e assim todo o nosso corpo, precisamos que nossos corações queimem. Pois coração que não queima é olho que não vê, é soldado desertor, é pastor que abandona suas ovelhas depois de tê-las tirado do aprisco. Coração que não queima é gente que usa gente para fazer carreira eclesiástica, que usa a congregação para impressionar o Bispo. Se nossos corações não queimarem, jamais estaremos aptos ao amor sacrificial. A lógica, puramente, não concebe que um justo morra por um injusto.
A razão, sem o auxílio de um peito que queima, jamais deixará você ser um capelão. Não é racional sair de casa para cuidar de gente que não te trará retorno algum: os universitários, quase sempre, não se tornarão membros da sua paróquia, não contribuirão financeiramente com sua “missão”. Não faz sentido sair de casa para ficar à disposição de gente que só se lembra de você quando precisa. Não é razoável perder oportunidades de emprego por isso. Não é adequado investir seu tempo e dinheiro em algo que não te trará retorno. Se e somente se o coração queimar, você estará apto a ser um capelão. O chamado a ser capelão não é chamado a ser protagonista; seu trabalho é discreto, quase imperceptível. Não há medalhas no final, não há uma igreja grande e bela no final da história. O chamado do capelão não é um chamado para vencer debates apologéticos; afinal, do que adianta ganhar debates se os corações dos “vencidos” continuam frios?
Se seu coração não queima, procure outra atividade, pois você não vai demorar muito para repensar sua escolha. A razão, desacompanhada de um peito quente, conduzirá você à fuga, seja ela qual for. Pode ser uma mudança na estratégia a fim de ter mais visibilidade no campus e ter melhores números para oferecer aos seus superiores; pode ser a realização compulsiva de eventos para “sacudir” o campus; pode ser o simples abandono do posto com o mais belo e forte argumento de que o “ciclo se fechou”. Se seu coração não queima, você logo se verá enredado por lógicas alheias ao Evangelho, mas não se dará conta disso: seus olhos continuarão fechados.
Mas se seu coração queima, então não é preciso pedir que você persista; você permanecerá. Você sairá de casa mesmo sem saber se alguém irá ao seu encontro; você estará lá. Se seu coração queima, você não se importará de pastorear gente que não pode dar nada em troca. Se seu coração queima, ele será capaz de educar sua mente, sua razão e fará com que você enxergue o que precisa enxergar.
Um peito quente é o que você precisa para compreender o que terá de fazer. Invista nisso. Ore para que nosso Senhor aqueça seu coração com um sorriso. “Na tradição judaico-cristã, a palavra ‘coração’ refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais”, diz Henri Nouwen. Não despreze isso.