Muito curta…
Semanas atrás, decidi passar alguns dias em uma pequena propriedade rural dos meus pais. A ideia era instalar-me por lá já na terça-feira, mas fui convidado para um jantar com amigos a ser realizado na quarta-feira daquela mesma semana. Era impossível dizer não, e mesmo que fosse possível, não diria. Há certas companhias/amizades que não se pode negligenciar.
Permaneci em Goiânia, o que acabou sendo muito bom para mim.
Uma amiga de longa data, profissional da alta gastronomia e requisitadíssima em todo o Brasil, entrou em contato na noite de terça-feira; convidou-me para acompanhá-la em uma visita a um possível cliente em uma cidadezinha próxima a Goiânia; aceitei o convite.
Não nos víamos e nem nos falávamos já fazia algum tempo, tamanha é sua agenda profissional.
Conversamos sobre quase tudo, mas a pequena cidade é muito perto para que, a caminho, exauríssemos todos nossos assuntos.
Uma viagem dessas é muito curta e nunca é o suficiente para saciar uma cumplicidade existente ou gerar alguma; para tanto, é preciso mais que isso.
Errando a entrada, mas acertando o caminho…
Chegando à cidade, erramos a entrada, mas nada que nos atrasasse; afinal, nem tudo que começa errado precisa terminar errado.
Passamos em frente à casa do irmão dela, mas ela preferiu não bater à porta, então fomos direto ao estabelecimento comercial do possível cliente.
Entramos e descobrimos que teríamos de esperar pelo proprietário.
Passados alguns minutos, ele chegou e perguntou se formávamos um casal; ri por dentro.
Teria sido muito interessante ter me antecipado a ela e ter dito que sim, apenas pelo gostinho de constrangê-la.
Mas não, tratava-se de seu ambiente de trabalho.
Ademais, ela é geniosa o suficiente para desmentir qualquer um, a qualquer hora.
Calei-me.
Feitas as devidas apresentações, fiquei sem saber se me retirava ou não. Nenhum dos dois pareceu incomodado com minha presença e logo deram inicio à conversa. Passado algum tempo, ele convidou-nos para conhecermos as futuras instalações da expansão do seu negócio.
A esta altura, já sentia-me incomodado, como se fosse um intruso; minha amiga, no entanto, jamais pediria para eu me retirar. Ora, não faria sentido ela pedir para eu me retirar de um lugar que ela mesma fizera tanta questão que eu estivesse presente, não é mesmo?
Ainda sim, percebi que minha presença poderia em algum momento fazer-se indesejada por parte do comerciante. Cheguei a entrar com eles nas novas instalações, mas, na primeira oportunidade, deixei-os a sós e passei a aguardar do lado de fora.
O picolezeiro…
Quando saímos de Goiânia fazia frio, mas àquela altura o calor já era uma realidade.
Ali, parado ao lado da calçada, estava um senhorzinho, um picolozeiro. Aproximei-me daquela figura tipicamente interiorana, de pele enrugada, marcada pelo sol e que exalava simpatia.
- Bom dia.
- Dia.
Sempre gostei de picolé de milho verde.
- O senhor tem picolé de milho verde?
- Tem não.
- Tem de que então?
- Tem de limão…
- Não…
- Tem de uva…
- Não…
- Tem de tamarindo…
- Não…
- Tem de goiaba…
- Não, não…
O que realmente importa…
Não… Não, não e não… Peço desculpas a você, leitor/leitora, mas tenho de interromper assim, abruptamente, o relato do diálogo. Prometo que ainda conto a história do homem que só dizia não.
Mas hoje… Hoje preciso fazer justiça, e como quase nunca faço… Vamos lá!
Quero voltar a narrar, em tom de elogio, a insistência da minha amiga em não me abandonar.
Depois que ouvi a história do homem que só dizia não, minha amiga procurou-me novamente… Convidou-me, insistiu para que entrasse; entrei, ainda sentindo-me alheio àquilo tudo, mas entrei, pois a insistência dela permitiu-me permanecer.
Não haveria risco de o empresário contrapor-se, ela estava resoluta, não abriria espaço para murmurações por parte dele, e de fato não abriu.
Pode parecer exagero, mas o gesto simples da minha amiga em insistir para que eu permanecesse, sua postura firme, que calou qualquer possibilidade de murmurações, fizeram toda diferença naquela quarta-feira…
Já fui abandonado, e sei o quanto é ruim. Já abandonei, e sei o quanto é desastroso. Dói ser abandonado, mas dói muito menos do que abandonar.Se tiver de escolher entre um e outro, escolha ser abandonado.
Estava ali a convite dela, e por mais que estivesse sentindo-me não parte daquela ocasião, ela transmitiu segurança, estabilidade e coerência…
Uma surpresa argentina…
Por fim, retornamos a Goiânia antes mesmo do horário do almoço.
Despedimo-nos cordialmente com a promessa de, em um futuro próximo, nos reencontrarmos.
Mas a quarta-feira ainda reservava uma surpresa argentina…
Lembra do convite para o jantar?
Então…
Cheguei atrasado, e, desajeitado, vesti o blazer enquanto caminhava em direção à porta do estabelecimento, onde me aguardava o anfitrião.
Cumprimentamo-nos e, já fazendo piadas, entramos no ristorante.
A esposa do anfitrião estava à mesa com a filha deles e gentilmente, sem alarde, com muita elegância e carinho, tomou a iniciativa de ajeitar meu blazer, que estava, digamos, fora do eixo.
Sentei-me.
Ofereceram-me vinho, aceitei.
Meu amigo disse que se tratava de um vinho argentino.
Fiquei surpreso. Nunca antes gostara de um vinho argentino.
Não entendo de vinhos, apenas gosto, mas posso afirmar, sem receios, que se tratava de um vinho firme, com personalidade; do tipo que não abandona seu paladar e nem te deixa abandoná-lo.
- Gostou?
- Sim.
~ m. g. a. ~