Um dia qualquer…
Dia desses, após uma reunião no câmpus Samambaia da UFG, fui em direção à lanchonete situada entre os prédios da Faculdade de Letras e a Faculdade de Filosofia. Como de costume, comprei meu café e sentei-me à mesa na companhia de um casal de universitários; enquanto tomávamos nosso café, éramos entretidos com a luta de classes estabelecida recentemente no câmpus – a luta entre cães e macacos-prego – impressionante como eles não se dão: as provocações por parte dos macacos-prego, além de muito divertidas, são de uma criatividade sem precedentes. Neste clima, as horas foram passando e quando nos demos conta já passavam de oito da noite.
O casal de universitários – que passara todo o tempo trocando olhares – seguiu para o ponto de ônibus enquanto eu segui para a EMAC; à época, namorava uma funcionária da UFG e tínhamos o hábito de irmos juntos para casa. O combinado era simples, eu teria de passar por lá (EMAC) por volta de oito e quinze; sai, então, apressado e decidido a cortar caminho pelo bosque.
O bosque…
O bosque cheira. O bosque cheira a maconha. Mas naquela noite não senti o cheiro de maconha, senti o cheiro de cigarro, daqueles feitos com palha de milho. O cheiro era forte. Eu gosto de tabaco, e aquilo não me incomodou – ao contrário – agradou-me; talvez por isso, não tenha percebido que enquanto caminhava, margeando o bosque, aproximara-me inconscientemente mais e mais da mata fechada e turva. Não era uma noite de lua cheia e o breu era quase total. A estranheza ficou por conta da solidão; não havia ninguém sentado, como de costume, às mesinhas de concreto, que ficam ao lado do bosque. Quando já era possível ver a silhueta da cerca separando o bosque da passarela (aquela que dá acesso ao CC e a EMAC) um forte estrondo calou toda a luz do Samambaia. Parei. Não estava assustado, mas por instinto, parei. Também por instinto levei a mão ao bolso, e desejando encontrar meu celular lembrei-me que o deixara em casa. De repente um barulho ensurdecedor de macacos-prego, como que fugindo de todos os cães sem lar do Câmpus, foi crescendo até que o som deu lugar à presença corporal. Não tenho ideia de quantos eram, sei apenas que promoveram um chacoalhar imenso na copa das árvores, bem como um levantar de poeira desagradável. Tossi. Finalmente, todos entraram mata adentro e o silêncio se estabeleceu. Uma brisa soprou em direção ao bosque e levou consigo toda a poeira. Já não conseguia ver mais a silhueta da cerca. A única coisa que via era o silêncio.
A gargalhada…
Tomado agora por certa desconfiança ouvi uma gargalhada distante. Dois segundos depois, outra gargalhada, esta menos distante. Ambas de dentro do bosque. Mais dois segundos e mais uma gargalhada, esta já não poderia dizer que estava distante. Dois segundos mais e silêncio. Pontos luminosos surgiram um a um, a sugerir-me um caminho, a fazer-me um convite para retomar o movimento que eu abandonara com o silencio da luz. Rompi a inércia e segui. Eu estava tão absorto que nem mesmo me lembro se dava ou não para ouvir meus passos ferindo a folhagem seca do inverno goiano.
O encontro…
Os pontos luminosos, não tardaram muito, revelaram-se pontas de cigarro de palha. Eu garanto; juro que eram pontas de cigarro de palha, sendo tragados por macacos-prego. Enfileirados lado a lado, olhando fixamente para mim, todos, em um só movimento, menearam suas cabeças em direção ao centro do bosque. Foi então que vi. O imenso corredor iluminado por pontos incandescentes terminava em um banco de praça, iguais àqueles da Avenida Goiás. Já convencido do meu destino, caminhei parcimoniosamente até o banco e sentei-me em uma das pontas do assento público. Ao lado do banco, na ponta oposta, um poste, típico de pracinhas do interior. Meu coração finalmente disparou. O que seria agora? O olhar se perdeu no nada, a atenção, não obstante à tensão, ficou dispersa. Desviei o olhar do poste e observei que os pontos incandescentes estavam se apagando, do mesmo jeito que surgiram, um a um. Senti uma presença; arrepiei-me todo. Não tinha coragem de voltar o olhar para o lado oposto do banco. Havia alguém ali, sabia, tinha certeza. A luz do poste projetava a sombra… A gargalhada, agora mansa, ao pé do meu ouvido, fez-me cair do banco. Não podia acreditar, conhecia aquele homem.
O causo…
Chamou-me pelo nome, estendeu a mão e ergueu-me. Disse-me para sentar e amoitar as costas no banco, pois iria contar-me um causo… Você gosta de pequi? Perguntou com sua voz arrastada. Respondi que não, que não gostava de pequi, nem de guariroba, nem de pamonha e tampouco de jiló. Ele gargalhou gostoso e ironizou o fato de um goiano não gostar dessas coisas. Emendou dizendo que isso não importava e que, talvez, o fato de não gostar de pequi fizesse com que eu gostasse ainda mais do causo. Diferentemente do que costumava fazer ao contar seus causos, ele não pretendia fazer-me rir. A coisa, disse ele, era séria. Contou que ouvira o causo em uma roda de violeiros, na cidade de Bela Vista de Goiás, há muito tempo.
Para encurtar a prosa, falo eu, digo apenas que tudo começou com uma rapariga que não soube amar. Não se sabe com certeza se ela não soube amar porque certo rapagão de Lisboa não a amou como devia, ou porque não sabia mesmo se deixar ser amada e amar. O fato é que acabou mesmo por ferir tão mortalmente o tal rapagão, que o fez sentir-se um vivo morto. O sereno desespero tornou mórbido seu olhar. Seu desgosto e morbidez eram tantos que nem mesmo os que ele chamava de pai e mãe queriam-no por perto. Tratavam-no como uma laranja podre, que de tão podre, não teria lugar nem mesmo em um saco repleto de laranjas podres. Os pais, por meio de um mensageiro, disseram que sua morbidez e fracasso certamente fariam mal à família e amigos; o melhor que poderiam fazer, argumentaram, seria recebê-lo nos dias em que ninguém mais estivesse presente, nos dias em que não fossem à Igreja, nos dias que não tivessem os colóquios com seus queridos… Acabou por desejar lançar-se ao mar, e lançou-se. Queria viver entre os brasis de que ouvira falar. Talvez além mar, pensava ele, haja lugar para a semente podre, de uma laranja podre, poder germinar. Deve haver, soluçava no seu encolhimento, algum lugar onde tudo o que se planta, dá.
A saída da costa Ibérica foi conturbada, sob forte tempestade. O mar bradou com a nau portuguesa durante um bom tempo, passando em meados da viagem a discutirem com voz e palavreado ofensivos, até que por fim, tiveram uma conversa amigável; e ela, a nau, já dilacerada por tantos insultos, descansou com o vislumbre da costa brasileira. Todos descansaram, todos sobreviveram. O desembarque, no entanto, desfez todo descanso. Chegaram no dia em que brasis, por uma razão que nunca souberam com exatidão, confrontaram os portugueses ali instalados. O perrengue foi tamanho que nosso rapagão perdeu-se do grupo. Conseguiu esconder-se por alguns dias, mas a fome deu sinais de vida e isto acabou por ameaçar a sua própria.
Depois de muito pestanejar, resolveu procurar um ajuntamento de brasis, quem sabe assim, julgava na sua inocência, teria chances de furtar algum alimento. O que ele não sabia era que os brasis eram muito sensíveis ao barulho e ao cheiro. Ora, portugueses não são silenciosos, e naquelas condições, certamente sentir-se-ia seu odor a metros de distância. Foi o que aconteceu. Seu cheiro e seu andar o denunciaram. Correu como nunca correra, meneando a cabeça de um lado para o outro em busca dos seus caçadores. A cada olhadela a imagem dos seus algozes crescia, tomava forma ainda mais definida. Ouviu um assobio! Não parou, continuou sua fuga. Ouviu outro assobio! Mas o desejo de escapar era tanto que o impediu de dar atenção àqueles sinais sonoros e nem mesmo percebeu que já ao som do primeiro assobio seus perseguidores desistiram da empreitada. O fôlego chegou ao fim e parou de correr. Compreendeu finalmente que estava sozinho, se deu conta que o sol já se amoitara no lombo do morro à frente. Agora estava com fome e sem fôlego. Sentiu uma tontura e resolveu escorar o frágil e debilitado corpo em uma árvore, daquelas que muitos homens seriam necessários para abraçá-la.
Adormeceu. Só acordou quando um distante e insistente assobio não podia mais ser ignorado. Uma forte neblina tomava conta do lugar. Ainda meio tonto, ergueu-se e tentou em vão aquecer os braços. Sentiu alguém agarrar-lhe as pernas, não tinha forças para gritar. Só pensou na rapariga que, certamente, não mais veria, não mais ouviria, não mais sentiria. Entregou-se, e de joelhos percebeu que aquela criatura horrenda, mesmo ela estando de pé, o olhava nos olhos. Entreolharam-se estranhados. A criatura afastou-se e com suas mãos fez menção de que ele, agora mais para rapazinho, deveria segui-lo. Sem opções e resignado, seguiu-o. Aquela criatura, disse-me o senhor do bosque, era Curupira.
Foram dias, meses, na companhia de Curupira; e nada do que o demônio dava-lhe para comer, ainda que saciasse a fome, o nutria. Dia após dia ficava mais difícil acreditar que em um passado recente a amada rapariga o chamara de seu homem, seu rapagão. Noite após noite ficava mais difícil acreditar nas promessas de Curupira, de que cedo ou tarde ele haveria de reencontrar o caminho de volta para o mar. Certa feita, depois de uma longa caminhada noturna – as preferidas do demônio – ele percebeu que haviam chegado num lugar plano, repleto de árvores retorcidas. Curupira disse-lhe para aguardar enquanto fosse buscar alimento para ambos. Viu-o andar, afastar-se; uma visão medonha era ver caminhar aquele demônio de pés voltados para trás. A noite chegou, e com ela o frio. Retorcendo-se, pediu a morte. A noite era de lua favorável e estava claro como dia. Teve a impressão de ouvir galhos quebrando ao seu redor, pensou ser a criatura dos infernos, mas não. Viu algo que julgou ser um cão com pelugem avermelhada. Percebeu que como ele, a besta estava faminta. Entendeu que alguém ali serviria de alimento, mas ele não tinha forças para caçar.
O caipira do bosque afirmou não ter havido luta. O português entregou-se, entendera que alguém que fora tratado como lobo e tivera de ser afastado das ovelhas só poderia ter aquele fim. Acabou sorrindo a própria desgraça. A criatura avermelhada, que, segundo nosso ancião, era o lobo guará, consumiu toda carne doída do portuga. Só não comeu o coração. Segundo o caipira, ao morder o coração, o lobo sentiu espinhos, se feriu; lançou o resto de homem ali mesmo. O sol já raiava quando Curupira voltou. Entristeceu-se. De alguma maneira, o demônio afeiçoara-se ao portuga. Afastou a ossada, encontrou o coração, reparou nos espinhos que agora estavam à mostra e enterrou-o. Mas antes, entoou um cântico, uma maldição.
A morte visitou seu coração
Espinhos de tristeza nele fizeram abrigo.
Coração, que pela dor foi fechado,
será aquele que se abre
para dele sair o fruto do engano.
Mostrar-se-á formoso,
da cor do ouro.
O tolo não te respeitará
e quando te ferir
ele também se ferirá.
Curupira não ficou satisfeito. Jurou que espalharia a semente do portuga. Prometeu também ser guardião da mata que agora e por toda a eternidade seria morada do coração de espinhos. Dizem que os gritos estridentes vindos das matas, atribuídos a Curupira, são gritos de dor, que o demônio brada a cada mordida que dá no pequi.
Foi sendo ferido e ferindo que se lançou ao mar, foi sendo ferido e ferindo que fora lançado a terra, é ferindo e sendo ferido que se espalha até os dias de hoje…
A despedida…
Confesso que esperava mais do causo… Mas nem todos aqueles macacos-prego fumando cigarros de palha tiraram-me o bom senso, não seria louco de contrariar o homem das gargalhadas. Como não gostei do causo e temia que meu descontentamento se fizesse notório, resolvi pedir uma pitada. Pitamos juntos, sem trocar uma única palavra. Olhei para copa das árvores e quando baixei o olhar novamente ele não estava mais lá. Entendi que a prosa terminara. As pontinhas incandescentes retornaram e refiz o caminho no sentido contrário.
EMAC
Assim que sai do bosque notei que a luz tinha retornado, pude então ver a cerca mencionada anteriormente; segui apressadamente em direção a ela e, quando chego ao estacionamento da EMAC, vejo o carro da minha namorada com a porta do motorista aberta. O estacionamento da EMAC é mal iluminado e não dava para ver se ela estava lá. À meia distância só pude concluir que de dentro do carro se ouvia Vivaldi. Diminui a passada, respirei fundo… Temi… Mas em vão, era ela sentada dentro do carro ouvindo as quatro estações. Tentei disfarçar meu incomodo, mas ela, muito perspicaz, perguntou ainda sentada no banco:
- Lindionho! Tá tudo bem?
- Sim.
- Ah… lindionho, num tá não. Cadê meu cherinbejin?
Beijou-me e quando ia entregar-me a chave do carro, eu disse:
- Hoje não, hoje você dirige, lindinha.
- Eita, lindionho, você tá pálido. Você comeu?
Então tive a feliz ideia de atribuir minha palidez à falta de alimento.
- Não.
- Quer comprar algo para comer?
- Não. Quero ir para casa.
Entramos no carro e fomos embora.
~ m. g. a ~